NOTÍCIAS

Dá para ganhar como a Bettina?

25 MAR 2019

Estratégia de investimentos alardeada pela jovem de 22 anos é altamente improvável e muito arriscada.

Se não passou as duas últimas semanas isolado no fundo de uma caverna e sem nenhuma conexão com o mundo virtual, você ouviu falar de Bettina Rudolph. Jovem, 22 anos, redatora da empresa de conteúdo financeiro Empiricus, Bettina tornou-se uma onipresença na internet. Ela afirmou, em um vídeo publicitário da companhia, que transformou R$ 1.500 em mais de R$ 1 milhão em apenas três anos, por meio de investimentos em ações que seguiram as orientações da empresa em que trabalha.
O vídeo viralizou. A estimativa é que ele tenha sido assistido por 15 milhões de pessoas.

Alçada à categoria de celebridade instantânea, Bettina virou meme, foi assunto de polêmicas e recebeu convites para participar de debates, de entrevistas e até mesmo de programas esportivos. Tanto alarido, bem ao gosto das campanhas agressivas da empresa de conteúdo, chamou a atenção do mercado financeiro e das autoridades de defesa do consumidor. A pergunta — sem trocadilho — de um milhão de reais é: dá para imitar a Bettina e obter esse retorno em três anos?

Seria incorreto dizer “impossível”. Mesmo assim, os especialistas ouvidos por DINHEIRO avaliam que seria bastante improvável. Segundo Álvaro Frasson, analista da corretora Necton, supondo-se que Bettina tenha investido apenas em renda variável nesse período, ela teria de ter aportado, em média, R$ 9.750 em dinheiro novo todos os meses. Além disso, ela precisaria ter escolhido ações e opções que tivessem uma rentabilidade duas vezes melhor que a do Índice Bovespa durante todos os 36 meses. Assim, quando o índice subiu 2%, a carteira da jovem investidora teria de ter rendido 4%.
Nos meses em que o indicador recuou 2%, as perdas de Bettina teriam de ter sido de apenas 1%. “Se tivesse conseguido isso, ela seria a melhor gestora de ações do Brasil”, diz Frasson. O consultor financeiro independente Junior Grilli é um pouco menos diplomático. Para ele, esses ganhos não são factíveis. Pelo anúncio que foi veiculado, Bettina teria obtido rentabilidade de 1% ao dia por três anos seguidos. Segundo Grilli, eventos inesperados, como a greve dos caminhoneiros, chacoalham os preços dos ativos. “Os chamados cisnes negros tornam praticamente impossível obter ganhos consistentes por três anos de maneira ininterrupta”, afirma.

AGRESSIVIDADE A campanha que transformou Bettina em uma celebridade — segundo a própria Empiricus, atualmente ela tem 260 mil seguidores no Instagram — não é uma exceção. Felipe Miranda, sócio-fundador da empresa, divulgou um longo vídeo na terça-feira 19 dizendo que essa é uma estratégia deliberada para chamar a atenção dos leitores. Em seguida, os longos textos procuram persuadir o leitor da solidez das teses de investimento e da vantagem que o internauta tem em assinar os relatórios para poder reproduzir o desempenho mostrado nos exemplos.

No entanto, ele garante que as intenções são boas. “Os comerciais de cerveja mostram pessoas sendo transportadas para praias repletas de belas mulheres ao tomar o primeiro gole”, diz ele. “Claro que eu não vou reclamar se eu tomar a cerveja e não aterrissar em uma praia, eu vou entender que o comercial está usando uma metáfora.” Para Miranda, os ganhos milionários promovidos em sua publicidade também são uma metáfora para tirar os investidores da zona de conforto e fazer com que eles prestem mais atenção em como aplicam seu dinheiro.
Metafórico ou não, o vídeo desagradou o Procon de São Paulo. Na mesma terça-feira, a autarquia, ligada à Secretaria da Justiça do estado, notificou a Empiricus para prestar esclarecimentos sobre a propaganda de Bettina. Na requisição, o Procon “exige os documentos que compravam a veracidade do que foi anunciado, com a demonstração da evolução financeira da atriz/depoente, no prazo de 48 horas”. Segundo a advogada Fabíola Meira, sócia do escritório Braga, Nascimento e Zilio, o problema não foi a agressividade. “Marketing agressivo não é ilícito, a ilicitude está em levar alguém a adquirir um produto ou serviço omitindo dados”, diz ela.

Segundo Fabíola, a imagem de Bettina, uma jovem que se tornou milionária em um período curto, pode levar muitos espectadores do vídeo em condições semelhantes a assinar os cursos da Empiricus achando que podem reproduzir o mesmo desempenho. “Se o vídeo não deixar claro que houve outros aportes e quais foram as condições do investimento, essa publicidade pode ser considerada enganosa por omissão”, diz ela.

O vídeo não foi a única campanha que incomodou. No dia 13 de março, em uma das cartas que envia semanalmente a clientes, Miranda criticou nominalmente a BrasilPrev, empresa de previdência privada líder de mercado, e controlada pelo Banco do Brasil. “BrasilPrev não dá”, dizia o título. “Quase a totalidade dos fundos da BrasilPrev é muito ruim, com retornos pífios nas mais diversas janelas temporais”, escreveu Miranda. E continuou. “A rigor, a maior parte dos fundos de Previdência dos bancos tradicionais é ruim (…) fazendo uma alocação de recursos péssima (…) e cobrando taxas altas de seus cotistas.” Na carta, o principal executivo da Empiricus recomenda resolver esse problema investindo em um fundo citado quase no fim do texto, o Vítreo FoF Superprevidência Icatu FI Multimercado.
Comum no mercado financeiro americano, a crítica direta à concorrência pegou mal. A BrasilPrev não comenta o assunto, mas quem conhece a empresa sabe que, por pouco, a cutucada não virou processo na Justiça. “A BrasilPrev optou por encaminhar o assunto por meio da associação de classe”, diz um executivo do setor. “A Empiricus fez uma generalização perigosa e encaminhou todos os seus leitores para um mesmo produto, independente da fase da vida e da tolerância ao risco de cada investidor.”

O Vítreo cobra uma taxa de administração bastante baixa dos cotistas, apenas 0,6% ao ano. No entanto, por ser um fundo de fundos, ele investe em 11 outros produtos. Seis desses, que representam 31,4% de seu patrimônio de cerca de R$ 700 milhões, cobram taxas de 2%. Na ponta do lápis, a taxa de administração ponderada dos fundos em que o Vítreo investe é de 1,07% ao ano. É mais baixa que a média do mercado. Mas não tão baixa como os — provavelmente metafóricos — 0,6% anunciados.

Críticas à parte, acredita-se que o vídeo viral virou lucro. Segundo estimativas do mercado, os 15 milhões de espectadores geraram um milhão de novos assinantes para a empresa, o que pode ter quadruplicado sua base de leitores pagantes, estimada por Miranda em 350 mil. Prova de que a publicidade, mesmo metafórica, é a alma do negócio. Procurada, a Empiricus não concedeu entrevista.
Fonte: Isto É Dinheiro .

VEJA TAMBÉM