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Vale a pena correr esse risco?

18 MAR 2019

No dia 21 de março, a taxa referencial Selic vai completar 12 meses no patamar historicamente baixo de 6,5% ao ano. E não há sinais de que ela vá subir no curto prazo. Isso reduziu a rentabilidade dos investimentos em renda fixa, o que tem levado os investidores a buscar aplicações mais lucrativas. Uma delas são os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (Fidc). Esses produtos, também chamados de fundos de recebíveis, investem em títulos a receber de empresas e bancos. Dedicados a investidores institucionais e qualificados, eles agora atraem também interessados com menos dinheiro.

Seu patrimônio cresceu 36,8% nos 12 meses, até fevereiro, para R$ 136,5 bilhões, segundo a Anbima, entidade que representa o setor. No ano passado, eles receberam R$ 5,7 bilhões em dinheiro novo. Já as carteiras de renda fixa sofreram saques de R$ 12,9 bilhões. O movimento se acelerou em 2019. No primeiro bimestre, os Fidc receberam R$ 14,2 bilhões, ao passo que as carteiras de renda fixa perderam R$ 9,1 bilhões. A explicação é a diferença de rendimentos. Segundo dados da Anbima, os fundos de renda fixa de baixo risco renderam em média 0,46% em janeiro. Nesse período, os Fidc dedicados a recebíveis do setor financeiro proporcionaram 6,15%.
Vai ficar mais fácil apostar nesses fundos. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que regulamenta o setor, deve facilitar o acesso dos investidores de varejo aos produtos. Segundo Ricardo Mizukawa, coordenador do comitê da Anbima que é responsável pelos Fidc, a estrutura de proteção com os dois tipos de cotas tem funcionado bem. Desde sua regulamentação, há duas décadas, já foram lançados cerca de 700 fundos desse tipo. “Em apenas oito deles a inadimplência foi elevada o bastante para afetar as cotas seniores”, diz Mizukawa.

Os Fidc são estruturas sofisticadas. Para proteger o investidor em caso de inadimplência dos recebíveis, eles oferecem dois tipos de cotas, as seniores e as subordinadas. Se algum título não for pago, o valor perdido será descontado da fatia do patrimônio expresso pelas cotas subordinadas. “Elas representam, em geral, 20% do patrimônio do fundo”, diz Rubens Vidigal Neto, sócio do escritório Perlman, Vidigal & Godoy Advogados. A diferença entre as cotas é visível na rentabilidade. Vidigal afirma que uma cota sênior com uma classificação de risco excelente costuma render entre 105% e 110% dos juros de mercado medidos pelo Certificado de Depósito Interfinanceiro (CDI). No caso das subordinadas, o ganho pode alcançar 180%. “Essas cotas mais arriscadas e mais rentáveis costumavam ficar apenas com os gestores ou com as empresas que emitiam os recebíveis, mas agora elas também estão sendo compradas pelos investidores”, diz o advogado.
RISCOS O apetite dos compradores tem feito os gestores correrem mais riscos. É o caso de Carlos Maggioli, principal executivo da gestora independente Quasar. Seus fundos investem em diversos produtos de renda fixa. Desde meados do ano passado ele vem comprando menos títulos de empresas e mais cotas de Fidc. Em sua avaliação, a remuneração dos títulos já não compensa, pois os fundos de recebíveis rendem mais. “Eles pagam 2% ao ano acima dos juros de mercado, ao passo que as debêntures têm pago cerca de 0,7% ao ano”, diz Maggioli. A demanda é tanta que a Quasar deve lançar seu próprio Fidc em seis meses, após analisar o assunto por um ano e meio. O novo fundo vai comprar recebíveis de pequeno valor, em media R$ 10 mil, emitidos preferencialmente por pequenas empresas. A meta é captar R$ 1 bilhão até o fim de 2020.

Para mitigar os riscos de calote, a Quasar vai montar uma fintech para comprovar digitalmente a autenticidade dos títulos a ser comprados pelo fundo. Não é excesso de cautela. Maggioli teme sofrer uma fraude como a que derrubou a gestora independente Silverado em meados de 2016. Naquela ocasião, três fundos da Silverado investiram em recebíveis que não tinham lastro. Isso provocou perdas de até 90% e deixou um rombo de R$ 500 milhões na praça.

Além das fraudes e do calote, o investidor também deve calcular os riscos de mercado. Eles variam segundo o desempenho da economia, diz Bruno Amadei, sócio da gestora Integral Investimentos. Se a reforma da Previdência não for aprovada, o crescimento deve ficar abaixo da previsão de 2,28%, afetando os negócios. “Caso esse cenário se concretize, o risco de calote das empresas tende a aumentar e o dos Fidc também”, afirma Amadei.
A forte demanda por Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (Fidc) tem estimulado a estruturação de novos produtos. A gestora paulista Empírica lançou, em fevereiro, um fundo destinado a comprar créditos originados pela fintech Biz Capital. Criada em 2016, a Biz empresta dinheiro para pequenas empresas que não têm acesso a financiamentos bancários, analisando o risco de crédito por meio de algoritmos. O ticket médio dos empréstimos é de R$ 25 mil.

“Os recebíveis do fundo são de empresas da base da pirâmide. São clientes considerados de maior risco pelos bancos”, explica o sócio da Empírica, Leonardo Calixto. Segundo o gestor, esse é um produto de impacto social, pois atende empresários com pouco ou nenhum acesso ao crédito que são geradores de emprego.Para lastrear o fundo, a Empírica já captou R$ 100 milhões, que foram divididos entre cotas sênior e mezanino. A cota sênior prevê retorno de 155% da taxa de juros de mercado. A mezanino tem retorno um pouco maior, mas sua distribuição foi realizada com esforços restritos.
Fonte:Isto É Dinheiro.

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