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Bancos elevam apetite, mas juros limitam crédito à pequena empresa.

13 NOV 2018

As quatro maiores instituições financeiras do País sinalizaram um foco maior na carteira de negócios menores, mas 61% dessas companhias ainda não conseguiram tomar empréstimos.

As altas taxas de juros vão impedir o aumento mais forte de crédito à micro, pequenas e médias empresas. Apesar do crescente apetite dos grandes bancos, a demanda dessas companhias será fraca e esperará uma maior recuperação da economia para acelerar.

Só no terceiro trimestre deste ano, os quatro maiores bancos do País (Banco do Brasil, Bradesco, Itaú e Santander) sinalizaram não somente uma reformulação do mix de produtos para micro e pequenas empresas (MPEs) como, juntos, totalizaram R$ 241,1 bilhões em empréstimos para esses negócios. O valor corresponde a um avanço de 2,8% em relação a igual período de 2017 (quando era de R$ 234,6 bilhões).

De acordo com o gerente de capitalização e serviços financeiros do Sebrae, Alexandre Comin, porém, mesmo que a situação dos pequenos negócios tenha “parado de piorar”, com uma “pequena geração de empregos” e melhora de caixa, as condições de crédito para essas companhias ainda é precária.

“A Selic [taxa básica de juros] já caiu muito e os indicadores de inadimplência das MPEs também estão reduzindo. Mas o ponto crucial do crédito, que é o custo do dinheiro na ponta, cai muito pouco e bastante devagar”, afirma o especialista. O último levantamento realizado pela entidade com seis mil empresários aponta que 86% das MPEs evitam buscar novos empréstimos.

Deste total, 61% não conseguiram obter crédito com os bancos nos últimos cinco anos e quase metade (47%) afirma que o principal motivo são as altas taxas de juros cobradas pelas instituições.

O estudo também mostra que a avaliação desses empreendedores sobre os bancos atingiu o pior nível desde 2013, com 61% achando o sistema bancário no País ruim ou muito ruim.

Segundo dados do Banco Central (BC) de setembro – a última coleta do Relatório de Crédito da autoridade monetária –, enquanto os níveis de inadimplência das MPEs reduziram 1,4 ponto percentual (p.p.) naquele mês ante igual período do ano passado – de 6,5% para 5,1% –, o saldo de crédito para essas companhias caiu 6,7% na mesma base de comparação, de R$ 532,3 bilhões para R$ 496,6 bilhões.

Os juros totais para pessoas jurídicas, por sua vez – os quais oferecem uma média das taxas de todas as modalidades de crédito corporativo para todos os portes de empresas (aqui é preciso levar em consideração que os grandes negócios, por oferecerem maiores garantias, têm juros menores) – caíram 1,8 p.p. na mesma relação, de 17,5% para 15,7%.

Ambiente de melhora

Os analistas consultados pelo DCI, no entanto, ponderam que as sinalizações dos grandes bancos quanto as concessões para MPEs são positivas.

Nessas linhas, todos os bancos privados registraram altas nas carteiras dessas empresas.

O maior crescimento foi do Itaú, que subiu 14,3% no terceiro trimestre em relação a igual intervalo de 2017, de R$ 59,1 bilhões para R$ 67,5 bilhões. Em seguida vêm Santander (+10,1%, de R$ 32,9 bilhões para R$ 36,3 bilhões) e o Bradesco (+8,3%, de R$ 90,9 bilhões para R$ 98,4 bilhões). A exceção foi o BB, que recuou 24,7%, de R$ 51,7 bilhões para um total de R$ 39 bilhões. Todos os respectivos presidentes desses bancos, no entanto, reiteraram o maior foco em MPEs na divulgação de resultados do terceiro trimestre.

Para o analista da Planner Corretora Victor Martins, a velocidade dessas melhoras ainda depende bastante do efetivo crescimento da atividade econômica para que “a ponta tomadora tenha melhores condições de empréstimo”.

“Este ano foi um divisor de águas. Até o ano passado, as pequenas estavam sofrendo para tomar recursos. Mas, como as grandes ou ainda aguardavam para crescer ou migraram para o mercado de capitais, o foco para MPE começou a crescer. Porém, elas são mais voláteis e têm um risco maior. Tudo depende do que virá do novo governo.”

Já segundo o economista do Serviços Central de Proteção ao Crédito (SCPC Boa Vista) Vitor França, a tendência é positiva, mas com um cenário bastante voltado para a carteira de recebíveis, as quais, no geral, possuem taxas menores e ofertas maiores de crédito.

De acordo com o BC, por exemplo, as linhas de desconto de duplicatas e recebíveis e a antecipação de faturas de cartão foram umas das linhas que mais cresceram para pessoas jurídicas em setembro frente a igual período de 2017.

Enquanto a primeira modalidade avançou 28,1% (de R$ 23,1 bilhões para R$ 29,7 bilhões), a outra subiu 79,6% na mesma comparação, de R$ 8,1 bilhões para R$ 14,6 bilhões.

“A situação está melhor e o ânimo do consumidor também, o que deve favorecer. Mas é preciso ter em mente que, em um primeiro momento, teremos uma estabilidade dos juros na ponta, uma vez que a Selic não deve cair mais”, avalia França, da Boa Vista.

“Até há espaço para redução, porém isso não acontecerá enquanto os níveis de concessões não subirem o suficiente para compensar e justificar uma queda de juros. Há possibilidade, contudo é preciso esperar”, complementa Martins.

Fonte: Fenacon

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