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Comerciantes que sobreviveram à crise se mostram cautelosos com o futuro.

13 NOV 2018

Lojistas que resistiram à recessão de 2015 e 2016 contam como tiveram de se desdobrar para manter os negócios em funcionamento.

Trabalhando em meio a uma avenida comercial onde há dezenas de lojas fechadas, Priscila Ávila, sócia de uma loja de decorações, localizada na W3 Sul, tenta dar continuidade à sua paixão: o comércio. Dona da microempresa há 12 anos, ela conta que a recente crise econômica foi uma das piores situações que já viveu. “Estou aqui porque sou teimosa, sou uma sobrevivente”, afirma. A loja foi uma das que precisaram se transformar nos últimos anos para não fechar as portas. Desde o enxugamento de estruturas, as demissões de funcionários e empréstimos para pagar as contas, as circunstâncias obrigaram a adoção de medidas duras, mas que foram necessárias para a continuidade do negócio.
Segundo Priscila, nos últimos três anos “tudo piorou, as vendas caíram e os clientes compram cada vez menos”. Com o consumo baixo, diante do aumento do desemprego e do aperto nas contas da população, a empresária vê as pessoas mais seletivas na hora das compras. No ramo de decorações, considerado supérfluo, o baque foi grande. “Com a falta de dinheiro, as pessoas focam mais em saúde, material escolar e alimentação”, lamenta. Por isso, a empresa, que chegou a ter sete funcionários, hoje mantém apenas três. Um deles, que preferiu não se identificar, trabalha há 10 anos na loja e lembra como os últimos foram tempos difíceis. “Teria sido muito complicado para mim se tivesse sido demitida com os outros. Não conseguiria pagar minhas contas”, diz.

Os sobreviventes da crise tiveram de se reinventar. Priscila ampliou as opções de venda, incluindo outros tipos de mercadoria na loja, além de serviços que não eram oferecidos. “Inserimos xerox nas decorações, é uma forma de chamar mais clientes”, explicou. As promoções também passaram a ser uma saída para a falta de demanda. “Baixamos os preços de alguns produtos e perdemos uma percentagem de lucro, mas foi a única forma que encontramos para nos mantermos de pé”, diz.

O economista-chefe da Confederação Nacional de Comércio (CNC), Fábio Bentes, afirma que adotar medidas duras foi uma providência comum às empresas que conseguiram se manter no mercado. De acordo com dados da entidade, o varejo fechou mais lojas do que abriu durante a crise econômica. Entre 2015 e 2017, 226 mil estabelecimentos pararam de funcionar. Com a recuperação econômica, mesmo que lenta, o comércio voltou a ter criação líquida de lojas: foram 2,2 mil no primeiro semestre de 2018.

Criatividade
“O pior ficou para trás, tanto para o varejo quanto para o consumo das famílias”, ressalta Bentes. “Há um processo lento de recuperação econômica, que demora a engatar por diversos fatores, inclusive o período eleitoral de 2018, mas que está ocorrendo. A resposta que falta é qual a velocidade que tomará a retomada nos próximos anos”, completa o economista-chefe da CNC.

A informação é recebida com alívio pelos empresários. Priscila conta que precisou renegociar o aluguel, diminuir o uso da energia, procurar outras operadoras de telefone, reduzir a publicidade da loja e até procurar mercadorias mais baratas para vender. “Agora, usamos as mídias sociais para fazer a propaganda da loja, eu mesma faço a arte dos anúncios”, exemplifica.

Segredo
A empresária Débora Raiter, que tem 26 anos de comércio, é outra sobrevivente da crise. A dona de duas lojas de colchões em Brasília conta que os últimos anos foram os mais difíceis de sua vida profissional. Ela foi presenteada pela mãe, aos 17 anos, com o negócio. Há cerca de dois anos, precisou fechar uma unidade, restando as duas atuais. Segundo ela, o segredo para não ser engolido pela crise é não gastar mais do que a receita. “É preciso ter pé no chão, não pode ter luxo”, afirma. Para sobreviver aos tempos sombrios, a comerciante conta que limitou as despesas. “Minha sorte é que eu tinha muito colchão em estoque, só assim consegui manter os preços para os clientes”, acrescenta.

Débora diz que, apesar da recessão, vê o futuro com otimismo, mas com poucos investimentos. “Eu pretendo me fortalecer até 2020, depois disso vou pensar em como investir no meu negócio”, conclui. Priscila também está aguardando dias mais promissores, mas ressalta que a falta de apoio do governo aos microempresários é perversa. “A burocracia para montar um negócio é muito grande, pois cobram muitos impostos e não nos dão estrutura”, reclama.


A tendência é de que, com a situação financeiras das famílias melhorando, o consumo aumente, o que pode estimular investimentos e contratação de funcionários. O presidente da consultoria Macroplan, Claudio Porto, diz que o cenário mais provável é de melhora nas condições econômicas. “Nós já estamos melhorando. Está certo que é numa velocidade muito lenta, mas o desemprego está caindo, o faturamento das empresas está melhorando e o consumo está crescendo. É um cenário de melhoria, mas, nos próximos anos, não haverá nada de espetacular e impactante que nos coloque num quadro de plena demanda”, pondera.

A empresária Jaqueline Soares, 45 anos, é responsável por uma loja de floricultura e vasos que funciona desde 1996. Mesmo com as análises dos economistas, ela diz que a “situação só piora”. “Nós tínhamos cinco funcionários, agora temos dois. Tem empréstimos que eu tive que pegar e estou pagando até hoje. Entre 2015 e 2018, nossas vendas caíram entre 20% e 30%”, completa. Mesmo assim, Jaqueline está com esperança para 2019.

O economista Hélio Zylberstajn explica que todas as melhorias na economia vão depender do começo do governo de Jair Bolsonaro. “É preciso dar condições para que se tenha uma economia equilibrada. Isso precisa ser feito controlando os gastos públicos, que são os principais agravantes das condições, hoje. A equipe de transição já se demonstrou empenhada em aprovar a reforma da Previdência, ou parte dela, em 2018. Tudo vai depender de como se desenrolar essa votação no Congresso. Por enquanto, os sobreviventes da crise estão numa boia esperando para saírem dessa situação de crescimento econômico baixo”, diz.
Fonte: CB Economia

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