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“Brasil não aprendeu absolutamente nada com a crise econômica”

04 OUT 2018

Daniel Leichsenring: Brasil é uma sociedade que falhou retumbantemente em melhorar a perspectiva econômica – Foto: Divulgação

O Brasil não aprendeu “absolutamente nada” com a grave crise econômica que fez o PIB encolher 3,5% em 2015 e outros 3,5% em 2016, diz o economista-chefe da Verde Asset Management, Daniel Leichsenring. “Nós desperdiçamos uma crise e não conseguimos nem sequer tirar lições dela”, afirma ele, ao comentar as dificuldades que o próximo presidente deverá ter para tentar resolver o conflito distributivo. A sensação dominante parece ser a de que “o Estado vai prover tudo”, segundo Leichsenring.

O economista cita o caso da greve dos caminhoneiros, ocorrida em maio, que provocou desabastecimento, afetando a produção e o comércio. O que mais lhe chamou a atenção não foi a paralisação em si, mas o apoio de uma fatia enorme da população ao movimento – 87% dos entrevistados por pesquisa do Datafolha disseram concordar com a greve. “Isso é absolutamente inacreditável. As pessoas foram afetadas no seu dia a dia, não conseguiram se locomover, tiveram desabastecimento, houve uma série de problemas e ainda assim a população apoia”, afirma ele. “O ambiente no país está tão inóspito que as pessoas aprovam qualquer coisa que na cabeça delas signifique algum tipo de demonstração contra o governo, contra o establishment.”

Leichsenring afirma que “o país tem um problema fiscal muito grande”, sendo necessário dar conta “urgentemente” de reduzir o déficit público. “Nós não temos muito tempo”, resume ele, ao se referir aos déficits primários elevados e à trajetória explosiva de crescimento da dívida bruta em relação ao PIB.

Mas Leichsenring destaca também os problemas que dificultam a economia avançar a taxas mais robustas. Segundo ele, “o financiamento de todos os direitos da Constituição criou um ambiente econômico em que os incentivos não estão alinhados para o crescimento”.

Na visão de Leichsenring, passados 30 anos da Constituição de 1988, o país não conseguiu se desenvolver e crescer nem resolver o problema fiscal. “Nós continuamos com problema de dívida”, afirma ele. “É uma sociedade que falhou retumbantemente em melhorar a perspectiva econômica. Muito avanço foi feito nas áreas em que a Constituição mais se propôs a agir, nas liberdades, nos direitos. Houve algum avanço em relação à distribuição de renda.”

No entanto, a Constituição criou disfuncionalidades, ainda que de maneira não intencional, avalia ele, citando a liberdade para a criação de partidos e de sindicatos. “Vamos pegar a questão dos partidos. Ficou claro que abrir um partido era a melhor coisa que alguém poderia fazer. Instantaneamente, tinha acesso a fundo partidário, a tempo de televisão. Virou um negócio.”

O objetivo, diz ele, era garantir organização ampla em partidos, numa época de clamor por abertura e por maior representatividade, mas acabou por se criar “uma estrutura de incentivos muito perversa”. Segundo Leichsenring, isso leva a uma situação “absolutamente indesejável”: diversos “grupos de interesse que se beneficiam enormemente dos incentivos criados”, brigando “até o fim da vida para manter os privilégios”. Nesse ambiente, várias corporações foram criadas e estimuladas ao longo do tempo, tendo capturado vários braços do Estado para interesse próprio.

“A nossa Previdência do setor público deve ser o maior programa de concentração de renda do universo”, afirma Leichsenring. “Eu nunca estudei esse assunto comparativamente, mas muito provavelmente a Previdência pública brasileira deve ser um dos maiores programas de concentração de renda do mundo”, diz o economista da Verde, a gestora comandada por Luis Stuhlberger. O valor das aposentadorias de quem trabalhou no setor público é muito superior às dos empregados do setor privado, por exemplo.

“A sociedade inteira está financiando isso”, afirma ele. “São aquelas instituições criadas ao longo do tempo que nós não conseguimos reformar e hoje impõem um custo do ponto de vista de crescimento e um custo enorme do ponto de vista da confiança no sistema político.

Ao falar das perspectivas para o próximo governo, Leichsenring diz que gostaria de ver ao longo de 2019 “um conjunto de políticas que fossem desenhadas para, em primeiro lugar, resolver o problema fiscal de modo urgente, tentando de toda maneira evitar aumento de carga tributária”. Para isso, é preciso conter o gasto, “o que significa rever Previdência e benefícios de modo geral, tirar privilégios e tentar fazer alguma reforma tributária que dê um pouco de racionalidade ao nosso sistema”.

O economista da Verde reitera a gravidade do problema fiscal do país, avaliando que o país não tem tempo de errar. Nesse cenário, seria melhor tentar aprovar o projeto da reforma da Previdência apresentada pelo governo Michel Temer. “[A proposta] Não é uma maravilha, mas já é um avanço.”

Segundo ele, se vierem no próximo governo propostas “muito diferentes das que já foram debatidas”, há o risco de se perder um tempo importante. O período de lua de mel após as eleições seria desperdiçado, em vez de ser usado para aprovar reformas importantes.

Isso pode ocorrer se houver a tentativa de aprovar uma mudança no sistema de aposentadorias introduzindo o regime de capitalização (com contas individuais), afirma Leichsenring. Segundo ele, a proposta não resolve o problema agora, gerando ainda um custo adicional relevante no curto prazo. Economistas de candidatos como Jair Bolsonaro (PSL) e Ciro Gomes (PDT) têm falado no regime de capitalização ao tratar da reforma da Previdência. “Esse é talvez o meu maior receio. Uma combinação de qual é o tipo de maioria que se consegue no Congresso, do tipo de negociação que vai levar a essa maioria e do tipo de proposta [apresentada].”

Sobre o cenário político, marcado atualmente pela polarização entre Bolsonaro e Fernando Haddad (PT), Leichsenring afirma não estar muito esperançoso de que o melhor conjunto de políticas vá vingar, embora ao mesmo tempo diga ter dúvidas de que o pior conjunto de propostas vai prevalecer. “O extremo mesmo, voltar à agenda Dilma, de total desprezo por qualquer responsabilidade fiscal, isso eu acho que não volta mais.” O problema, ressalta, é que o meio do caminho não resolve o problema fiscal brasileiro, e, portanto, é negativo para dívida pública e para o crescimento, colocando riscos importantes no horizonte.

Em caso de vitória de Bolsonaro, uma preocupação para ele é como será a relação com o Congresso, mesmo que as eventuais divergências entre o deputado e o seu conselheiro econômico, Paulo Guedes sejam superadas e prevaleçam as melhores diretrizes de política econômica. “No fim das contas, a campanha dele é toda em cima do discurso anti-establishment, contra o político tradicional.”

“Acho que boa parte do Centrão tende a compor com o governo, mas o problema é o establishment político, a elite política, e aí acho que a composição é um pouco mais difícil”, pondera ele, lembrando que isso pode dificultar a formação de maiorias para aprovar reformas constitucionais.

No caso de Haddad, Leichsenring diz esperar que o petista faça uma convergência para o centro, mas considera que a proposta tende a ser insuficiente para dar conta do problema fiscal. Além disso, há riscos grandes de retrocesso em algumas áreas, como a trabalhista e institucional, com o enfraquecimento das instituições, afirma ele.

A situação fiscal precisa ser resolvida para evitar que a dívida bruta, hoje em 77,3% do PIB, continue a avançar, diz ele. É necessário “um programa de ajuste minimamente decente” para impedir que o indicador siga em alta para 100%, 120% do PIB, de acordo com Leichsenring. Se o país não for capaz de fazer isso, chegará um momento em que restarão duas opções. A primeira é um calote explícito, com o governo dizendo que não pagará o que deve. “Nós já vimos isso no passado”, lembra ele.

“É um negócio brutal sobre a economia. Você desestrutura todo o sistema financeiro, desestrutura todas as famílias e as empresas.”

A outra alternativa é deixar que o valor real da dívida do governo diminua, pelo aumento da inflação – o calote implícito. “Se você não consertar a origem do problema, você vai para algum tipo de calote, seja explícito, seja implícito.”

Para aumentar a capacidade de crescimento do país, Leichsenring considera fundamental a implementação de uma agenda de competitividade que inclua medidas como a abertura da economia e a melhora da qualidade do sistema tributário. Na área política, vê como crucial uma reforma que ataque o problema do “abismo” entre o representante e o representado. “Tem que reduzir gasto de campanha. Avançar no sentido de caminhar para um voto distrital reduziria muito o custo.”

Leichsenring espera um crescimento próximo de 1,5% neste ano, estimando uma expansão entre 2% e 2,5% no ano que vem. Um ponto favorável, segundo ele, é que a economia está numa situação muito tranquila para crescer. Ele desenvolveu um índice de vulnerabilidade da economia, que perto de meados do ano estava num dos menores níveis desde o observado nos anos 1990.

A ideia é avaliar qual é a probabilidade de que o ciclo de crescimento seja abortado devido a algum desequilíbrio. O indicador leva em conta variáveis mais cíclicas, como a inflação em relação à meta perseguida pelo Banco Central (BC), o ritmo de crescimento comparado ao PIB potencial (aquele que não causa pressões inflacionárias) e o nível de ociosidade na economia, além de outros fatores como a relação dívida/PIB, o nível de reservas como proporção do PIB e o resultado em conta corrente.

A única grande vulnerabilidade era a fiscal, diz Leichsenring. Havia tranquilidade no front inflacionário, o déficit em conta corrente era muito baixo e havia bastante ociosidade na economia, uma combinação propícia para a continuidade do ciclo de crescimento. “O problema é que, ao longo do tempo, se você não consertar a situação fiscal, há o risco de isso contaminar as outras coisas”, afirma ele, indicando mais uma vez a urgência de se enfrentar o desequilíbrio das contas públicas.
Fonte: Portal Contábil

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