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Como é empreender em família?

05 JUL 2018

A mais velha é líder; o do meio, comunicativo; e a caçula, organizada. Alguma semelhança com membros da sua família? Os adjetivos descrevem, respectivamente, os irmãos Fernanda Maitelli, 38 anos, Lucas Brandão, 32, e Thaisa Maitelli, 31. Os três administram, juntos, duas lojas em Porto Alegre: a Espaço do Piso (Coronel Bordini) e a Saccaro (Lucas de Oliveira). E foram, justamente, as diferenças nas personalidades deles que deram forma à equipe. Fernanda foi a primeira a entrar no negócio de revestimento fundado pelos pais (agora aposentados), há 20 anos. Na verdade, ela sempre fez parte da empresa, de uma forma ou outra. Hoje, sua função é a de responder pela recém-inaugurada franquia de móveis Saccaro.

Lucas e Thaisa se dividem na administração da Espaço do Piso. Mas, quando alguém não pode estar em sua função, as substituições acontecem. Muito pelo fato de terem liberdade para dialogar. Ou, como repetem, pela flexibilidade que a relação entre irmãos permite. Foi a flexibilidade, aliás, que convenceu os três a trabalharem em família, em vez de buscarem emprego fora. "Se eu tinha o que agregar à nossa empresa, por que ofereceria ao mercado?", provoca Fernanda. Lucas, que morou no exterior por 10 anos e se formou em Marketing pela San Diego State University, na Califórnia, pensa da mesma forma. "Eu daria meu máximo a algo, então que fosse ao nosso próprio negócio. Até para continuar o legado", corrobora ele, que voltou ao Brasil em 2014. E o espírito de cumplicidade não fica só entre os três, que ainda têm um quarto irmão, Alex, fotógrafo. A cultura da gestão horizontal integra a rotina de trabalho junto aos colaboradores, garantem. "Todos fazem parte da família", avisa Thaisa. Com essa mentalidade, eles esclarecem que pessoas de fora do clã têm oportunidades de crescimento dentro da empresa, por seus méritos.

Se funciona empreender entre irmãos? A aposta na Saccaro responde: o projeto recebeu um investimento de cerca de R$ 1,5 milhão, oriundo dos lucros da primeira empreitada, na Espaço do Piso. E, além das conquistas longe de casa, a convergência entre família e negócios tem suas peculiaridades até na hora do almoço dominical. "No fim de semana sempre tem um debate", diverte-se Lucas.

'Uma briga pode acabar com um negócio'
Cláudia Tondo, psicóloga de 51 anos, lida há mais de duas décadas com empresas familiares e famílias empresárias. A experiência lhe dá credenciais para afirmar que "uma briga familiar pode acabar com um negócio". A empresa de Cláudia, a Tondo Consultoria, atende clientes em todo o Brasil e até no exterior, como Montevidéu, no Uruguai. Ela atua em processos de sucessão ou busca soluções para conflitos corporativos. Seu papel é importante porque o trabalho entre parentes exige cuidados específicos. Mas nem sempre são negativos. Uma empresa administrada por irmãos, por exemplo, tem uma característica que lhe favorece: a da complementariedade.

"A relação de confiança é algo que pode dar muito certo", coloca.

Elaine Martins, 50, psiquiatra que também atua na Tondo, destaca a importância de saber separar os assuntos pessoais dos profissionais. "Muitas vezes, histórias que não são bem resolvidas no passado, na hora de uma decisão de gestão, podem vir à tona. Isso é um grande problema. Se a família não se organiza, ela pode desorganizar o negócio", enfatiza.

Matrimônio em casa e no ambiente de trabalho
Igor Krüger, 37 anos, está acostumado a conviver com empreendedorismo 24 horas por dia. Sua família tem loja de móveis desde que ele era criança. Seguir esse caminho, agora ao lado da esposa, Paula Ascoleze, 38, portanto, foi algo natural. Mas ambos concordam que não é tarefa fácil. Isso porque separar as questões pessoais das profissionais é um exercício constante. Igor, por exemplo, chega em casa e esquece do trabalho. Paula, no entanto, continua postando e conversando com os seguidores das marcas Doce Anjo e Novo Milênio no Instagram. As operações funcionam lado a lado, na avenida Wenceslau Escobar, na Zona Sul de Porto Alegre. "A Paula não desliga", conta Igor. O jeito, consideram, é respeitar os espaços um do outro. Paula se responsabiliza pelo marketing, enquanto Igor, pelas finanças. "Fizemos uma divisão bem forte para não ter conflitos", detalha ela.

Mas essa consciência veio com o tempo, depois de anos de experiência. A família de Igor, inclusive, enfrentou problemas de relacionamento há algum tempo, que resultaram no fechamento da primeira loja deles, a Minha Casa, aberta entre 1994 e 1998 nas avenidas Assis Brasil e Oswaldo Aranha. Depois de superadas as dificuldades e refeita a sociedade, surgiu a Novo Milênio, na avenida Bento Gonçalves, sob a batuta dos pais e irmã de Igor, em 1998. Depois de 10 anos trabalhando com eles, o empreendedor abriu sua filial na Tristeza, em 2008, ao lado de Paula.

A loja cresceu na região e, recentemente, se mudou para um espaço maior, de 700m². Nesse período, os lucros da Novo Milênio encorajaram a investir no projeto da Doce Anjo, de artigos para bebês, em 2014. A unidade também deslanchou e passou a ocupar o local antes usado pelo negócio de móveis, de 300m². "O casal tem que se dar muito bem para funcionar", reforça Igor.

Tia e sobrinha apostam no ramo da educação
Após verificar que o turno inverso é um nicho de mercado ainda bastante precário às necessidades dos pais, a especialista em educação inclusiva Jeniffer Caselani Duarte resolveu atender este público, com a Villa Domi. Para o desafio, chamou alguém bem próximo para entrar na empreitada, a tia Kelly Caselani. O objetivo da Villa Domi é ser um "propagador de bons valores para que as crianças possam agir como multiplicadores de boas práticas para suas famílias e amigos e que se tornem adultos solidários, gentis e honestos". Ter a tia por perto foi também uma decisão estratégica. Kelly trabalhou em grandes empresas no setor comercial, com foco na sua formação de Gestão de Pessoas.

"Nossa família sempre foi muito unida, temos muitos exemplos de sucesso com o trabalho em conjunto. Acreditamos que, como ponto positivo, compartilhamos dos mesmos valores. Trabalhar em família é gratificante; mas lógico que, como qualquer sociedade, só irá dar certo, se cada sócio respeitar a individualidade do outro. Entretanto, como ponto negativo, é necessário sempre uma atenção para que não se misture questões sentimentais com o lado profissional", considera Jeniffer. A Villa Domi fica no bairro Boa Vista, em Porto Alegre.
Fonte: Jornal do Comércio.

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