NOTÍCIAS

Um terço dos pequenos fechou as portas na crise da Petrobras,

04 JUL 2018

Após a profunda crise que atingiu a indústria de óleo e gás nos últimos anos no Brasil, 30% a 40% das pequenas e médias empresas da cadeia fecharam as portas, estima a KPMG. No entanto, diante de uma nova fase de investimentos no setor, sobreviverão apenas aqueles que enxugaram estrutura e investiram em produtividade. Segundo levantamento da KPMG, feito a pedido do DCI, das 61 empresas de exploração & produção (E&P) que atuam na indústria de petróleo do Brasil, 51 são de pequeno porte. “As grandes companhias do setor não quebraram na crise principalmente porque tinham o apoio de suas matrizes. Mas as locais não aguentaram”, afirma o sócio de óleo e gás da KPMG, Anderson Dutra.

Conforme o levantamento da consultoria, a grande maioria das empresas que atuam no segmento de E&P no País é brasileira – 28 mais precisamente. Já na cadeia de fornecedores, entre nacionais e estrangeiras, o número de companhias chega a aproximadamente três mil, incluindo comércio, serviços e outros segmentos.

“Muitas empresas de pequeno porte dependem diretamente do setor de óleo e gás, sem contar os grandes polos como Macaé e Campos [dos Goytacazes, no Rio]”, acrescenta Dutra.

Para o diretor da consultoria Ramboll do Brasil, Eugenio Singer, a queda da demanda do setor, resultante dos problemas da Petrobras, impactou muito a indústria. “A cadeia de fornecedores continua retraída como um todo e alguns investimentos estão represados, inclusive as consultas para estudos ambientais caíram nos últimos anos”. Ele salienta que até as multinacionais sofreram na crise recente. “A diferença foi o apoio das matrizes.”

Raio-x

Diversos países compõem o capital das empresas de E&P no Brasil, com os Estados Unidos capitaneando a lista. Mas a variedade é extensa. “Só sobrevivem aqueles que têm competitividade, independentemente da nacionalidade”, pontua Dutra. A cadeia de fornecedores de óleo e gás no País contém milhares de empresas de comércio, serviços, engenharia, transporte, logística, entre outros. Conforme o levantamento da KPMG, aquelas classificadas no segmento de “comércio” são fornecedoras de diversos insumos para a indústria, incluindo aço, químicos, tintas e extintores, por exemplo. Em logística, estão contemplados tanto afretadores de barco para o supply chain da cadeia como empresas de logística em geral e transporte de passageiros. Já as de serviços englobam desde as grandes parapetroleiras, como Schlumberger, Halliburton e Baker, até alimentação, manutenção predial, entre outros.

Segundo o sócio da KPMG, mais de 50% da mão de obra da cadeia está com os pequenos e médios. Grandes polos se formaram no entorno das cidades que encabeçam os principais projetos da indústria, especialmente na camada pré-sal. Com um cronograma mais definido de leilões, as empresas têm conseguido previsibilidade para investir e planejar, diferentemente dos últimos anos. Dutra lembra da crise que se instalou na cadeia da Petrobras desde 2014 até meados do início de 2017, quando ocorreu o fenômeno das “cidades-fantasmas”. “Municípios como Macaé tiveram problemas que se estenderam até pequenos comércios como restaurantes. Alguns hotéis fecharam as portas.”

O diretor da RTA Consultoria, Vanderlei Oliveira, conta que há alguns anos a Bacia de Santos (SP) se tornou a mais promissora no segmento do pré-sal. “Não só as empresas de E&P elevaram a demanda do setor, mas comércio e serviços indiretos, como hotelaria e escolas de curso superior”, detalha.

No entanto, com a crise da Petrobras, o consultor relata que empresas e associações de toda a Baixada Santista fecharam as portas. “A demanda não veio conforme o esperado.” Oliveira pondera, contudo, que os negócios na indústria do petróleo já voltaram a crescer na região da Baixada Santista, até porque recentemente a Bacia de Santos ultrapassou a de Campos em volume de produção na camada pré-sal. “Os leilões que vêm sendo promovidos na área têm mudado de forma positiva a região”, afirma o consultor. “Os projetos estão começando a voltar e já temos recebido consultas de empresas que fornecem para a cadeia da Petrobras”, detalha.

Os especialistas da área apontam ainda para o potencial dos leilões promovidos pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) em alto-mar (offshore) e em terra (onshore). De acordo com o sócio da KPMG, o Brasil é altamente promissor inclusive em áreas terrestres. O executivo da Ramboll alerta ainda para a demanda de desmonte das plataformas offshore em idade avançada – o chamado descomissionamento –, que deve aumentar nos próximos anos. “Para esta tarefa, uma normatização está sendo estabelecida pela ANP. Uma vez concluída, vai ocorrer uma movimentação importante na cadeia de óleo e gás”, destaca.

Segundo Singer, atualmente cerca de 120 plataformas já estão com idade avançada no Brasil e precisariam passar pelo descomissionamento. “Os valores para esse tipo de serviço são muito altos”. Ele cita como exemplo o processo recente de desmonte de plataformas na região do Mar do Norte, onde foram consumidos em torno de US$ 120 bilhões.

“No Brasil, estimamos que cerca de US$ 20 bilhões seriam necessários para este fim.”

Perspectivas

Na visão do diretor da Ramboll, a retomada consistente do setor de óleo e gás no Brasil deve acontecer em cerca de três anos. “As empresas que sobreviveram estão mais enxutas e eficientes e dessa vez devem diversificar o foco”, analisa Singer. Já o analista da RTA se mostra mais otimista. “Os investimentos na indústria de óleo e gás são muito altos e de longo prazo. Os projetos começaram a voltar e a estrutura dos grandes polos como da Bacia de Santos já está montada”, avalia Oliveira. “As empresas virão mais cautelosas e o crescimento deve ser mais sustentável”, complementa.O sócio da KPMG comemora principalmente o maior número de operadoras no pré-sal. “Cada empresa que chega ao País traz uma estratégia de aplicação dos recursos e o seu know-how, o que deve influenciar de maneira positiva a cadeia local”, assinala Dutra.
Fonte:Fenacon

VEJA TAMBÉM