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Clima empresarial cai com incerteza política e a crise dos combustíveis.

29 MAI 2018

O Índice de Clima Empresarial caiu de 6,1 pontos em abril para 4,9 pontos este mês, de acordo com pesquisa realizada pelo Grupo de Líderes Empresariais (LIDE) e pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). O levantamento foi realizado ontem com executivos de diversos setores que estavam presentes em um almoço-debate com o presidente do Banco Central (BC), Ilan Goldfajn. Quando questionados sobre a situação atual dos seus negócios, 17% dos empresários responderam que ela está pior do que em março, mês no qual apenas 3% consideravam o cenário negativo. Já outros 53% dos executivos afirmaram que o seu negócio está melhor do que há dois meses atrás. Em março, essa porcentagem era maior, ao marcar 60%.

As expectativas para a geração de emprego são mais negativas. Enquanto em março, 48% das empresas pretendiam contratar, ontem, somente 30% delas indicaram criação de novos postos. O cenário político (63%) foi apontado como o principal fator que está impedindo as companhias de crescerem.

“Nós já prevíamos que este ano seria de indefinições políticas, por ser um ano de eleições. No entanto, o ambiente tem se mostrado especialmente conturbado, já que não sabemos os rumos [políticos e econômicos] que o País irá tomar [no próximo ano]. E essa situação atual dos combustíveis agravou ainda mais o cenário de incertezas”, disse a presidente da UBS no Brasil, Sylvia Coutinho, ao comentar os dados da pesquisa do LIDE e da FGV. Ontem, analistas de mercado chegaram a reduzir de 2,50% para 2,37% a perspectiva de expansão para o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 2018. Na avaliação da presidente da UBS, a greve dos caminhoneiros pela redução dos preços dos combustíveis “pode ter impactado um pouco” essas projeções. O relatório foi fechado na última sexta-feira (25). “Eventos como esses acabam gerando incertezas”, pontua Sylvia Coutinho. Ela pondera, no entanto, que a perspectiva para os investimentos nacionais e estrangeiros de longo prazo é positiva. O diretor-geral da fabricante de auto-peças norte-americana Dana Indústrias no Brasil, Raul Germany, disse, inclusive, que a empresa, em seus 70 anos de presença no País, sempre investiu tanto “em épocas difíceis e como de crescimento”. “Nosso maior investimento ocorreu em 2016 [no auge da recessão], por meio de aquisições”, lembra Germany. “A economia brasileira voltou a crescer de forma gradual e entendemos que este é um momento adequado de investir. No entanto, essa paralisação dos caminhoneiros na última semana – que está se estendendo por esses dias – cria uma preocupação maior nos nossos acionistas. Nós seguimos transmitindo um grau de tranquilidade [para os acionistas], mas uma situação como essa sempre traz um certo nível de incerteza”, complementa o diretor da Dana.

Política monetária

Ao comentar sobre os impactos da greve dos caminhoneiros, o presidente do BC, Ilan Goldfajn, disse que o acontecimento não terá nenhum efeito sobre a inflação. “Choques que são muito do dia a dia não são algo que influenciam a política monetária. A política monetária é muito mais resiliente”, disse Goldfajn, destacando que, para o BC, o que importa é a trajetória da inflação de médio e longo prazo. Questionado sobre o efeito do preço do diesel no Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), Goldfajn destacou que a inflação é uma média de vários preços. “Às vezes acontece de termos choques que levam para baixo e outros para cima. BC tem de trabalhar com a média da inflação”, disse. A projeção do mercado para o IPCA subiu de 3,5% a 3,6% em uma semana, enquanto a dos preços administrados foi de 5,4% a 5,5%. O executivo da multinacional australiana do setor agrícola Nufarm, Marcos Gaio, avalia que o cenário para o agronegócio está muito positivo e que a expectativa é que ele continue aquecido em 2019, com destaque para a produção de soja, milho, algodão e cana-de-açúcar. Porém, ele admite que o prolongamento da paralisação dos caminhoneiros pode afetar negativamente o setor. “Isso que estamos vivendo evidencia que o Brasil é um país extremamente vulnerável na área de infraestrutura”, afirma. “Somos muito dependentes de um só modal [o rodoviário]”.

O diretor comercial da Barchetta Simonsen Sociedade de Advogados, Walther Carneiro Pinheiro, avalia, por sua vez, que ainda há um “marasmo na economia” brasileira. Ele, que tem muitos clientes na área de serviços auxiliares de construção civil, conta que há empresas nacionais que estão preferindo investir em outros países. “Eu tenho pelo menos quinze clientes que estão investindo no Paraguai, país que está crescendo muito e onde há segurança jurídica”, diz. Na contramão desse cenário, o vice-presidente Latam da empresa de soluções digitais CI&T, Mauro Oliveira, diz que, apesar do cenário atual de incertezas, o setor de tecnologia passa por um bom momento, já que cada vez mais as empresas alocam recursos em inovação. “Há um aumento dos investimentos em tecnologia. Diante desse cenário, nossa empresa tem registrado um crescimento médio anual de 30%. Boa parte disso é explicada pelo fato de que 40% da nossa receita vem de exportação”, afirma Oliveira.
Fonte:Fenacon

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