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Paixão pelo negócio supera em 50% a competência

22 MAI 2018

A paixão pelo que faz é a grande motivação de Werner Bornholdt, contador e economista (Universidade Mackenzie), mestre e doutor (PhD) em Psicologia das Organizações e Recursos Humanos (Universidade de Barcelona) e que presta consultoria a empresas familiares e famílias empresárias em estratégias, governança e gestão há 35 anos. Foi executivo, ainda bem jovem, de multinacionais nas quais adquiriu experiência ao lidar com várias gerações. Essa influência despertou o interesse de trabalhar com sucessão de empresa familiar. Empresas e Negócios -

Quais os principais desafios ou problemas que as empresas familiares enfrentam?

Werner Bornholdt - Todas elas têm diferentes estágio, mas como é um ciclo, têm, em algum momento, uma dificuldade maior na empresa. Por isso, atuamos em três círculos: família, propriedade e empresa, simultaneamente e integradamente. A dificuldade pode aparecer na empresa sendo, na maioria, em âmbito da relação famíliar. Mas, com muita frequência, surgem obstáculos na questão sucessória, por conta de vendas, alienação e morte súbita. E, de repente, o processo sucessório está confuso, surgindo demandas em muitas frentes. Procuramos trabalhar no processo de transformar divergências entre as famílias, os sócios ou os executivos, em convergência. Empresas e Negócios -

E os problemas são parecidos em todo o mundo?

Bornholdt - As famílias do mundo inteiro são muito parecidas, portanto, os problemas também. Participei de eventos pelo mundo afora e é muito semelhante, com um conceito que pode ser traduzido na seguinte frase: pai rico, filho nobre e neto pobre. Acompanho e convivo com famílias empresárias na Europa, por exemplo, onde em alguns países, o tipo de conselho de administração é diferente, mas as demandas são parecidas. O Brasil é um país muito mais novo e a maioria das famílias empresárias surgiram com empreendedores imigrantes, e isso o torna um pouco diferente, digamos, que do Japão, Ásia, Europa ou EUA, em nível de conhecimento, de aprendizado e de aplicação. Lembro que, há 25 anos, as questões que eu trazia eram uma surpresa, como conflito de interesses, igualdade de gênero, entre outros, mas agora isso não existem mais. Empresas e Negócios -

É possível mensurar o aumento da participação feminina nas empresas?

Bornholdt - Não temos essa estatística, mas, das minhas relações e com base nos nossos últimos 200 clientes, podemos constatar que a parcela de participação efetiva de mulheres na gestão é maior do que 25%, um número bem expressivo e relevante. Em conselho de administração, no entanto, estão aquém. Empresas e Negócios -

Existe um limite de envolvimento dos membros da família nos negócios da empresa?

Bornholdt - Imagine três círculos, um que nós chamamos de sistema familiar, outro de sistema societário entre parentes e propriedades, e um terceiro que é empresa (gestão). Há uma intersecção entre eles. A família precisa ser unida, manter uma certa harmonia em torno das convergências dos interesses econômicos e financeiros, tanto da sociedade como da empresa. Acreditamos muito em profissionalizar a família e trabalhar este aspecto, porque a paixão por um negócio supera em 50% a competência. Gostar, ter paixão, se envolver é contagiante para todos os executivos e toda a empresa. Empresas e Negócios -

No caso de herdeiros, existe um plano que os prepara para uma sucessão?

Bornholdt - Nossos projetos envolvem todos os descendentes. Temos grupos com crianças entre seis e 14 anos, que chamamos de estágio um, a base, quando nos dedicamos em preparar herdeiros como acionistas alinhavados e responsáveis. Há o herdeiro que pode e se propõe a entrar no negócio da empresa, no sentido de trabalhar como executivo, e essa é uma outra fase. Atuar como acionista e participar do conselho de sócios, é ainda outra. Mas em todos os estágios fazemos o acompanhamento do processo sucessório. Empresas e Negócios -

As atividades podem começar bem cedo?

Bornholdt - Sim, mas aí nos deparamos com duas linhas no País. Uma delas defende que os herdeiros não devem trabalhar sem antes estudar fora do País, e esperar que aos 30 anos iniciem as atividades na empresa. Já nós achamos que devem começar cedo, trabalhando na copiadora da instituição, por exemplo. Estudamos todos os modelos e fazemos um filtro com todos eles e, para isso, trabalhamos muito em grupo, em equipe para assim diferenciá-los. Empresas e Negócios -

E o herdeiro que não possui talento algum para o negócio da família, mas quer participar da empresa?

Bornholdt - Trabalhamos muito a respeito de que ele deva ser bem-sucedido no talento que possui, seja ele musical ou para a fisioterapia, por exemplo. É por isso que o acionista deve ser preparado, pois, em qualquer situação de herdeiro, e que ele venha a ser mal-sucedido, mais tarde pode vir a bater na porta da empresa. Nosso trabalho é que todos os herdeiros tenham sucesso no que fazem de melhor. Temos um sistema de avaliação que estuda 18 potenciais, uma ferramenta chamada label, que proporciona identificar os principais talentos do membro da família e, a partir desta avaliação, trabalhamos com os destaques. Empresas e Negócios -

E como manter o negócio, eternizar o legado diante de tantas mudanças?

Bornholdt - Falamos em três tipos de sucessão e, a partir deles, nossos projetos são focados em 30 anos para frente, uma geração. A discussão sempre é o negócio em termos de tecnologia e mercados em três décadas. Temos vários herdeiros, e esses jovens estão ajudando através da criação de startups, alta tecnologia ou franquias, tudo relacionado à própria empresa, porque a evolução é muito rápida. Em um negócio, tudo é facilmente adaptável.
Fonte: Jornal do Comércio - Uol

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